quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Espelho Estilhaçado


Narcissus, Caravaggio (1598-99).

O espelho, do latim speculu, modelo, pretende simbolizar, nesse contexto, uma alusão a uma determinada concepção de mundo, secularmente utilizada como a estrutura sobre a qual os homens construíram representações acerca do real fundadas a partir de técnicas de confrontação do real que ao invés de se aproximarem dele o colocam em aporia diante de suas próprias manifestações. À noção de Eu, mais complexa do que o princípio da identidade, pode ser atribuído o ponto de partida dessa quimera com a qual nos deparamos hoje e que nos aniquila, estilhaça.
     A herança clássica e o mal-estar diante de uma existência esvaziada pelos anseios de uma compreensão exagerada e desesperada do mundo, que fracassa diante do confronto com a realidade, instauram um arranjo existencial fundado numa angústia que se interpõe no cerne da dobra do desconhecido revelado pela infecundidade de toda providência, seja ela material ou imaterial. Uma insolubilidade que dissolve as identidades e todos os demais limites quando defrontada consigo mesma além da barreira do senso comum.
     O estilhaçamento é, portanto, o ponto de partida para superação do modelo, é a fissura, o portal que é preciso transpor. Seus meios, sua potência criadora, são o caminho a percorrer para além de si mesmo, o que o homem anseia transpor, sua condição.
     Espelhos Estilhaçados é destarte um anseio do porvir, um grito que irrompe de dentro do espelho até os confins do mundo. Serão os registros da nossa dor e da nossa glória na infindável jornada pela conquista das nossas possibilidades infinitas de ser Homem.

2 comentários:

  1. ficou muito bom, liebe :)
    boa sorte com o blog!

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  2. Profundo e verdadeiro... Uma visão do eu, do desejo de ser, ter, estar. O homem é infinito em possibilidades, anseios e construções.

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